terça-feira, 6 de julho de 2010

Naturalmente descafeinado

Brasil desenvolve método de produção para pés de café desprovidos de cafeína

Descobertos há seis anos, os pés de café desprovidos de cafeína finalmente podem chegar ao mercado — e graças a um método desenvolvido no Brasil, onde, ironicamente, os descafeinados não têm grande apelo popular.

Um estudo coordenado pela Fundação de Amparo à Pesquisa de São Paulo (Fapesp) usou agentes químicos para induzir mutações no DNA de pés de café. Trata-se de uma técnica empregada há décadas na agricultura, mas nunca com esta planta.

— A primeira etapa é fazer alterações pontuais no material genético — explica Paulo Mazzafera, diretor do Instituto de Biologia da Unicamp e coordenador da pesquisa. — Depois, colocamos as sementes que passaram por aquele tratamento para germinar.

Daí só resta a seleção das plantas que desenvolveram a característica desejada: a ausência total de cafeína.

Cerca de 35 mil sementes foram analisadas, com diferentes doses de agentes químicos e tempo de tratamento.

Os pesquisadores encontraram sete plantas sem cafeína. Uma proporção altíssima, considerando a ocorrência de mutações na natureza.

Os pés desprovidos de cafeína produzirão sementes com a mesma característica. A partir daí, portanto, o experimento parecia encaminhado.

Mas não foi simples assim.

A mutação induzida fez com que as flores desses pés de café florescessem mais cedo do que o normal.

Este fenômeno diminui a produtividade de sementes.

O cafeeiro normal começa a produzir o pólen quando a flor ainda está fechada, garantindo uma numerosa autofecundação. Nas plantas obtidas pelo experimento, a flor floresce precocemente, antes mesmo da produção do pólen.

— Não registramos autofecundação em muitos pés de café que passaram por mutações — lamenta Mazzafera.

— É um problema, porque essas plantas passam a receber pólen de cafeeiros normais. E este cruzamento origina grãos de café com cafeína

Abelhas garantem produtividade

O pesquisador desenvolveu duas estratégias para driblar esta deficiência.

A primeira: cultivar separadamente plantas normais e “mutantes” — um espaço razoável entre elas cessaria a troca de pólen. O segundo passo é colocar abelhas nas plantações onde não há cafeína. O inseto aumenta a polinização do café. Com a autofecundação acelerada, cresce a produção de novas sementes.

O método desenvolvido pela Unicamp é mais barato e eficiente do que os usados atualmente em todo o mundo para a produção de café descafeinado.

Duas das três fórmulas mais conhecidas sacrificam substâncias importantes para o desenvolvimento do aroma e sabor do café.

— O método mais eficiente usa a forma líquida do CO2 para lavar os grãos de café. Mas esse processo demanda alta pressão e temperaturas de até 70 graus Celsius, ou seja, um aparato que encarece o produto — ressalta o pesquisador da Unicamp.

No Brasil, a receptividade ao café descafeinado é muito menor à observada em outros países. Embora o produto seja responsável por 10% de todo o café comercializado internacionalmente, aqui ele responde por apenas 1% das vendas.

— As palpitações provocadas pela cafeína podem causar efeitos na saúde das pessoas. Aparentemente os brasileiros são menos sensíveis a este efeito estimulante — cogita Mazzafera.

O café descafeinado mais encontrado no país é solúvel — algo não muito digerido pelos brasileiros. O descafeinado em grãos, como o produzido pela pesquisa, é mais caro e difícil de encontrar.

Com a resistência dos consumidores nacionais ao produto, o pesquisador da Unicamp mira o mercado estrangeiro. A expectativa é levar para o campo, até o ano que vem, as mudas produzidas com sementes mutantes. As exportações começariam em três ou quatro anos.
Fonte: O Globo

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